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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Viver a vida


No seguimento do mail anterior lembrei-me do poema "Lembrete" de Mário Quintana e, neste preciso momento, não existe nada que faça mais sentido. Deviamos reflectir sobre o que ele encerra...

Lembrete

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram-se 50 anos!

Agora é tarde demais para ser reprovado.

Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.

Desta forma, eu digo:
"Não deixe de fazer algo que gosta, devido à falta de tempo, pois a única falta que terá, será desse tempo que infelizmente não voltará mais."
                                                                 Mário Quintana

domingo, 21 de março de 2010

E de repende se faz poesia...

Hoje comemora-se o dia mundial da Poesia, exactamente no mesmo dia em que começa a Primavera.

Florbela Espanca dizia:" Há uma primavera em cada vida: é preciso cantá-la assim florida, pois se Deus nos deu voz, foi para cantar! E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada que seja a minha noite uma alvorada, que me saiba perder...para me encontrar..."

Digam lá se estes dois momentos não se conjugam em perfeita harmonia?

A Primavera a chegar, qual musa inspiradora e, de repente, se faz poesia...

Estive a ver a origem da palavra poesia.
Vem do grego poieo, que significa: fazer, criar, fabricar, executar, agir, ser eficaz, conseguir e compor poema. Mas, considerando um significado mais subjectivo, podemos dizer que a poesia engrandece a alma e expressa sentimentos. É algo tão especial que precisa de um dia, também especial, para ser comemorado.

Poesia é um mundo de emoções que fervilha no interior de cada um.

Federico Garcia Lorca dizia que "Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas" e penso que tinha razão.

Desta forma, decidi comemorar este dia escolhendo um poema que tenta decifrar um pouco do "mistério" maravilhoso da chegada da Primavera.

ANUNCIAÇÃO

Surdo murmúrio do rio,
a deslizar, pausado, na planura.
Mensageiro moroso
dum recado comprido,
di-lo sem pressa ao alarmado ouvido
dos salgueirais:
a neve derreteu
nos píncaros da serra;
o gado berra
dentro dos currais,
a lembrar aos zagais
o fim do cativeiro;
anda no ar um perfumado cheiro
a terra revolvida;
o vento emudeceu;
o sol desceu;
a primavera vai chegar, florida.
                                                         Miguel Torga

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Esperança

Todos sabem o quando gosto de animais e de como me aflige vê-los sofrer.

Sabemos que diáriamente, por todo o mundo, existem pessoas que sofrem, animais que sofrem mas geralmente, é o que nos bate directamente à porta o que nos comove mais.

Sabemos que não devia ser assim mas infelizmente é uma realidade incontornável e com a qual temos de aprender a viver.

Eu como sonhadora que ainda sou, tento sempre ajudar dentro das minhas possibilidades. Participo em campanhas de todo o género e que me inspiram confiança mas a minha ajuda parece sempre ser muito pouca.

Hoje o meu pensamento esteve sempre preenchido por uma cadelinha linda que está na rua e a quem estou a tentar ajudar dando-lhe comida e afecto. Dei-lhe o nome de Esperança porque é disso mesmo que se trata. Esperança de dias melhores para este ser meigo e afectuoso que só pede carinho e um cantinho para estar.

Isso fez-me reflectir sobre o que é ter Esperança.
É dela que precisamos para ganhar forças e continuar a nossa luta diária de vida.

Ter esperança é ter a fé sempre muito viva dentro de nós.
E que apesar das agruras da vida, podermos ter confiança que coisas boas vão acontecer.
É ter coragem para lutar e vencer todos os obstáculos.
É acreditar que tudo é possível e que nada é o fim...
Ela é, no fundo, a nossa energia e a mola propulsora para o nosso dia a dia.

Não devemos ficar somente agarrados a ela. Devemos usá-la para avançar porque ela é vida, ela é... esperança!


Esperança é um bichinho
um bichinho insistente
a gente quase nem percebe
não percebe, mas sente

Esperança chega suave
roça a pele, acarinha
e feito criança em colo de mãe
a gente se esconde e se aninha

Esperança pode quase tudo
revira, redescobre, reinventa
e a gente acredita de novo
a alma renasce, sedenta

Esperança é arco-íris
cor intensa, maravilhosa
de um dia pro outro
vai do cinza ao cor-de-rosa

Esperança leva adiante
reanima, alimenta
dói de vez em quando
mas o coração aguenta

Esperança, vem ao meu lado
quero-te todos os dias
pega na minha mão, divide comigo
tanta dor, tanta alegria.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O homem das castanhas

Se existe tradição de que gosto é este nosso hábito bem português de comer castanhas por altura do S. Martinho. É quase como que o sentir de toda uma cultura. Uma delícia!


Na Praça da Figueira,
ou no Jardim da Estrela,
num fogareiro aceso é que ele arde.
Ao canto do Outono,à esquina do Inverno,
o homem das castanhas é eterno.
Não tem eira nem beira, nem guarida,
e apregoa como um desafio.

É um cartucho pardo a sua vida,
e, se não mata a fome, mata o frio.
Um carro que se empurra,
um chapéu esburacado,
no peito uma castanha que não arde.
Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado
o homem que apregoa ao fim da tarde.
Ao pé dum candeeiro acaba o dia,
voz rouca com o travo da pobreza.
Apregoa pedaços de alegria,
e à noite vai dormir com a tristeza.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais calor p'ra casa.

A mágoa que transporta a miséria ambulante,
passeia na cidade o dia inteiro.
É como se empurrasse o Outono diante;
é como se empurrasse o nevoeiro.
Quem sabe a desventura do seu fado?
Quem olha para o homem das castanhas?
Nunca ninguém pensou que ali ao lado
ardem no fogareiro dores tamanhas.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais amor p'ra casa.

José Carlos Ary dos Santos

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Animais nossos amigos

Como referi no meu post anterior, o encontro de sábado foi um espectáculo. Foi bom rever quem já conhecia, conhecer quem não conhecia e criar alguns laços que ficarão de certo para toda a vida!

Tudo o que possa escrever é pouco para descrever este encontro mas houve alguém que o soube fazer melhor do que ninguém.

Pegando no mote da canção "Os animais são nossos amigos", não poderia terminar este assinalar de futuras memórias sem vos deixar o poema que foi escrito pelo Vicktor e citado durante o almoço. Muito obrigado Vicktor.

Fiz uma pequena montagem que me parece estar à altura do mesmo. Espero que gostem.

É um poema lindo, como só ele sabe fazer, e que expressa muito bem o que sentimos pelos animais e o que eles representam para nós.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O guardador de rebanhos


Acho este poema de Alberto Caeiro, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, lindo e de grande significado!

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro (O guardador de rebanhos)

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A graciosidade da borboleta...

A borboleta é um daqueles seres graciosos que nos vem provar que mesmo sendo frágil e efémera nunca deixa de ser bela...


















Com arte de bailarina consagrada
e numa coreografia de ondas e laços,
desenha em largas curvas os compassos,
como quem dança ao som de uma toada
que apenas ela ouve, mas descreve
nos volteios da sua trajectória.
Por fim e numa pausa breve,
ergue as asas, em jeito de vitória.
E parece aguardar a aclamação
que lhe é devida, por tão bela exibição

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

António Aleixo

Todos em minha casa gostam de musica. Durante toda a minha infância estive rodeada por ela.

Lembro-me na minha meninice de estar à mesa em familia e o meu pai pegar na viola e tocar umas musicas.

Só sabe uns quantos acordes e nem imaginam a quantidade de musica popular portuguesa ele cantava.

Em muitos desses momentos usavamos os poemas de António Aleixo para brincarmos com as palavras e quem sabia, cada um à sua vez, cantarolava os poemas.

À poucos dias, não sei bem porquê veio-me à memoria esses momentos inolvidáveis e deu-me vontade de falar deles e do seu poeta.

Assim, gostaria, e para quem ainda não ouviu falar, de vos dar a conhecer António Aleixo que para mim e para muitos é um dos melhores poetas populares que Portugal conheceu.

Apesar de ser semi-analfabeto era famoso pela sua ironia e pela crítica social sempre presente nos seus versos ainda hoje tão actuais.

No emaranhado de uma vida recheada de pobreza, mudanças de emprego, imigração, tragédias familiares e doenças, na sua figura de homem humilde e simples, havia o perfil de uma personalidade rica, vincada e conhecedora das diversas realidades da cultura e sociedade do seu tempo. Do seu percurso de vida fazem parte profissões como tecelão, guardador de cabras, polícia e servente de pedreiro, trabalho este que, como imigrante foi exercido em França

De regresso ao seu país natal, restabeleceu-se novamente em Loulé, onde passou a vender cautelas e a cantar as suas produções pelas feiras portuguesas, actividades que se juntaram às suas muitas profissões e que lhe renderia a alcunha de "poeta-cauteleiro".

Faleceu por conta de uma tuberculose, em 16 de Novembro de 1949, doença que tempos antes havia também vitimado uma de suas filhas.

Apesar de não saber escrever teve a ajuda do Dr. Joaquim Magalhães pelo que deixou como legado uma obra poética singular no panorama literário português da primeira metade do século XX.

Em homenagem ao Poeta e à sua obra, no parque da cidade de Loulé foi levantado um monumento frente ao “Café Calcinha”, local outrora frequentado pelo Poeta.

Há alguns anos também passou a existir uma «Fundação António Aleixo» com sede em Loulé e que já usufrui do Estatuto de Utilidade Pública, o que lhe permite atribuir bolsas de estudo aos mais carenciados.

Deixo-vos aqui algumas das minhas favoritas quadras da sua autoria e aconselho-os a ler os dois volumes do “Este livro que vos deixo”.

É assombrosa a actualidade das suas quadras.

Boas leituras!

Após um dia tristonho
De mágoas e agonias
Vem outro alegre e risonho
São assim todos os dias

Os que bons conselhos dão
Ás vezes fazem-me rir
Por ver que eles próprios são
Incapazes de o seguir


Contigo em contradição
Pode estar um grande amigo;
Dúvida mais dos que estão
Sempre de acordo contigo.


Quando te vês mal, e dizes
Que preferias a morte,
Pensa que outros menos felizes
Invejam a tua sorte

Que o mundo está mal, dizemos,
E vai de mal a pior;
E, afinal, nada fazemos
P´ra que ele seja melhor.

Talvez paz no mundo houvesse,
Embora tal não pareça,
Se o coração não estivesse
Tão distante da cabeça.

É tão engraçada a vida ...
Sem que a gente a veja assim,
Volta ao ponto de partida,
Quando está perto do fim.

Embora os meus olhos sejam
Os mais pequenos do mundo,
O que importa é que eles vejam
O que os Homens são no fundo.

Que importa perder a vida
Em luta contra a traição
Que a razão mesmo vencida
Não deixa de ser razão.

P´ra mentira ser segura
E atingir profundidade
Tem que trazer sempre à mistura
Qualquer coisa de verdade.

Uma mosca sem valor
Pousa com a mesma alegria
Na careca de um doutor
Como em qualquer porcaria.

Se umas quadras são conselhos
Que vos dou de boa fé;
Outras são finos espelhos
Onde o leitor vê quem é.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Só de sacanagem


Gosto muito deste texto de Elisa Lucinda:

Meu coração está aos pulos!

Quantas vezes minha esperança será posta à prova?

Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.

Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?

Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?

É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.

Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva o lápis do coleguinha", "Esse apontador não é seu, minha filha". Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.

Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.

Só de sacanagem! Dirão: "Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba" e vou dizer: "Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau."

Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!

terça-feira, 8 de setembro de 2009

E assim se faz poesia...

Quero o voo das borboletas e o equilibrio dos beija-flor!

Dia lindo!



















Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo


Sofia de Mello Breyner Andersen

terça-feira, 7 de julho de 2009

Todo o tempo é de poesia























Todo o tempo é de poesia.

Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.

Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia.

Todo o tempo é de poesia.

Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas que a amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação do caos
à confusão da harmonia.

António Gedeão, Obra Poética

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Poema em linha recta

Gosto muito deste poema de um dos heterónimos de Fernando Pessoa: Álvaro de Campos.

Acaba por ser uma crítica à hipocrisia das pessoas que tantas vezes se tentam passar por perfeitas não o sendo e que, ao mesmo tempo, criticam outras que, em ultima instância, são o reflexo do que não gostam nelas mesmas...

Serve para reflectir...

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil
Eu, tantas vezes irresponsavelmente parasita, indesculpavelmente sujo
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar
Eu, que, quando a hora de soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nuca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles principies - na vida ...

Quem me dera ouvir alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia.
Não! São todos o ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então, sou só eu que sou vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem Ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem Ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

terça-feira, 2 de junho de 2009

Quando eu nasci...

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

Sebastião da Gama

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Traduzir-se

Uma parte de mim é todo mundo
Outra parte é ninguém, fundo sem fundo

Uma parte de mim é multidão
Outra parte estranheza e solidão

Uma parte de mim pesa, pondera
Outra parte delira

Uma parte de mim
Almoça e janta
Outra parte se espanta

Uma parte de mim é permanente
Outra parte se sabe de repente

Uma parte de mim é só vertigem
Outra parte linguagem

Traduzir uma parte na outra parte
Que é uma questão de vida e morte

Será arte?
Será arte?
Será arte?

Ferreira Goulart

terça-feira, 26 de maio de 2009

Retorno

Por tudo passei e nada sou.
Talvez apenas sombra
em meu próprio mundo.
Nada existe à minha volta
que não me pertença.
Tudo sou, indivisível ou nulo.
A quem escutar neste final obscuro?
o outro eu, também sou eu
e nada percebo além de mim.
Penetro no resto de luz
e me solto no abismo infindo.
Confio no impulso em mim.
Em outro nível, retorno.

Flávio Alberoni C. Farias

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Balada para os nossos filhos


Independentemente de se já ser pai ou não, este poema/canção não deixa de ser lindo...

Um filho é como um ramo despontado
Do tronco já maduro que sou eu
Um filho é como um pássaro deitado
Num ninho da mulher que me escolheu
Um filho é ver-se um Homem atirado
Num mundo da verdade em que nasceu
Um filho é ver-se um Homem prolongado
Das raízes da terra até ao céu

Meu filho, minha vida
És meu sangue e meu carinho
Meu pássaro de carne
Meu amor
Meu filho que nasceste
Do ventre do carinho
Da minha companheira que deu flor ...


Fernando Tordo

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O Mar de Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Sonhar

Eu tenho uma espécie de dever
que é o dever de sonhar
e sonhar sempre
pois sendo mais do que um
espectador de mim mesmo
eu tenho de ter o melhor
espectáculo que posso
e assim me construo
a ouro e sedas
em salas supostas
invento palco, cenário
para viver o meu sonho
entre luzes brandas
e músicas invisiveis...

Fernando Pessoa

Solidão


Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo… Isto é carência.
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar… Isto é saudade.
Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes, para realinhar os pensamentos… Isto é equilíbrio.
Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente para que revejamos a nossa vida… Isto é um princípio da natureza.
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado… Isto é circunstância.
Solidão é muito mais que isto.
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa Alma.

Francisco Buarque de Holanda