
Há personagens que fazem parte da nossa vida sem que com elas tenhamos trocado uma só palavra. Habituamo-nos à sua presença e são como que património da nossa vivência. Hoje apeteceu-me falar de uma destas personagens.
Esta personagem soube atribuir a um corriqueiro gesto do quotidiano, um significado especial e misterioso, levando-nos a pensar que tipo de vida se esconde por detrás de um aceno.
A personagem de que falo é o “senhor do adeus” uma personagem que os lisboetas conhecem e que, todos os dias faça chuva ou faça sol desde há alguns anos, se dirige para as zonas do Saldanha (à noite) e Restelo (ao final da tarde) para acenar ininterruptamente, e sempre com um sorriso pueril nos lábios, para os carros que passam. Este ritual obsessivo, tem tanto de enigmático como de desconcertante, e se não fosse tão real poderia julgar tratar-se de um verdadeiro mito urbano.
Não é doente, não é louco, apenas gosta de dizer adeus aos carros.
Quem já falou com ele sabe que é lúcido e simpático. E não se importa que lhe chamem maluco.
Ele sabe que o mundo está ali todo, a passar em frente, veloz.
E acho que lhe diz adeus porque tem uma certeza: ele fica, os outros vão. E o mundo é mais bonito quando temos certezas. Quando sabemos para onde vamos e para onde vão os outros.
Naquele breve instante em que alguém lhe buzina e ele retribui com um aceno, as coisas fazem mais sentido. Naquele breve instante, há dois amigos.
A maior parte das pessoas devolve-lhe o aceno com um sorriso nos lábios e só isso já basta para valer a pena o acto de afecto que o aceno encerra.
Descobri recentemente que o “senhor do adeus”, que afinal prefere ser chamado pelo “senhor do olá” se chama na realidade João Paulo Serra, o Sr. João, tem 76 anos de idade e o seu motivo para elevar o aceno a uma forma de vida, é a solidão com que se deparou há uns anos após a morte da sua mãe. Sente que acenar é a forma de comunicar e de sentir gente.
Por trás daquela figura alta e esguia de trajes clássicos mas marcantes, esconde-se alguém que fez deste périplo a sua razão de existir e tornou a sua pessoa num ícone da cidade de Lisboa.
A mim mostrou-me que um simples aceno tem a capacidade de me pôr bem disposta.
Gosto do senhor que diz adeus.
E acho que, mesmo sem me conhecer, ele também gosta de mim, porque continua a sorrir e a dizer-me adeus como quem diz: “ - Boa viagem, eu fico aqui.”
E amanhã eu sei que ele está lá.
E ele sabe que o resto do mundo vai continuar a passar por ali e que as coisas vão continuar a fazer sentido.
A vida assim é simples… E mais bonita.

São assim as pessoas que têm a capacidade de ser felizes com pequenos nadas...
ResponderEliminarbjs
É UMA PENA NÃO HAVER MAIS "SENHORES DO ADEUS" ESPALHDOS POR ESSE MUNDO FORA, PRINCIPALMENTE EM PORTUGAL.
ResponderEliminarUM BOM RESTO DE SEMANA
BEIJINHO
ISABEL
...gostei . Tb conheço a 'históris' do sr. e enternece.
ResponderEliminarnao conhecia esta historia mas é verdade o que ele diz. se te disserem adeus tu tens sp tendencia a responder pq parece-me que se ultrapassa de alguma forma aquela barreira obscura das cidades em que ninguem fala com ninguem e tal... eu ja fiz isso do adeus com 2 amigas mais novas. foi girissimo e toda a gente nos disse adeus tb. aconselho a todos experimentarem é uma sensação mesmo boa. mas eu não o fiz em lisboa senao ja era conhecia pela troope do adeus lol. bj
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